Ela aprendeu cedo, ainda menina no sertão central do Ceará, que a distância entre uma pessoa e os seus direitos pode ser a maior das injustiças. Foi essa convicção, nascida em Mucambo e lapidada nas comarcas do interior do Pará, nas comunidades ribeirinhas de Santarém e nas unidades do sertão nordestino, que conduziu Tarcijany Linhares Aguiar Machado ao posto máximo da Defensoria Pública da União.
Primeira mulher eleita pela carreira para dirigir a instituição e aprovada no Senado Federal com a maior votação já registrada para o cargo, ela assume o biênio 2026-2028 com uma missão que traduz em números a urgência do seu discurso: levar a Defensoria aos cerca de 65 milhões de brasileiros que ainda vivem sem acesso a um Defensor Público Federal.
Nesta entrevista à Revista Justiça & Cidadania, a Defensora-Geral fala das origens que moldaram a sua liderança, do peso da representatividade, dos gargalos da expansão e do modelo de soluções negociadas que marcou a sua posse, quando um acordo extrajudicial garantiu a manutenção do Bolsa Família a famílias que aguardam a análise do Benefício de Prestação Continuada.
Raízes no sertão
Revista Justiça & Cidadania – A senhora costuma dizer que aprendeu, ainda menina em Mucambo, que a distância não pode ser obstáculo para a dignidade. Como a experiência de crescer no sertão central do Ceará moldou a Defensora Pública que a senhora se tornou?
Defensora Pública Federal Tarcijany Linhares –Crescer no interior do Ceará me ensinou que as desigualdades têm rosto, nome e endereço. Desde muito cedo compreendi que o lugar onde uma pessoa nasce não pode determinar o tamanho dos seus sonhos nem o alcance dos seus direitos. Convivi com as dificuldades de acesso à educação, à saúde e à justiça, e essa vivência me deu algo que nenhum livro ensina: a sensibilidade de enxergar a necessidade do outro e a convicção de que o Estado precisa chegar justamente onde quase ninguém chega.
Quando atendo um assistido, não vejo apenas um processo. Vejo a realidade concreta de quem buscou a Defensoria, as barreiras que essa pessoa venceu para chegar até ali, a história de luta por dignidade que cada demanda carrega. Levo comigo uma certeza que nasceu no sertão: a dignidade não pode depender da geografia, da renda ou da condição social.
JC – Filha de uma educadora e de um comerciante que começou como feirante, a senhora chegou ao curso de Direito com o apoio do Fundo de Financiamento Estudantil. Que papel as políticas públicas de acesso ao ensino tiveram na sua história e como isso se reflete na sua leitura sobre o Estado?
TL –As políticas públicas mudaram a minha vida. O financiamento estudantil foi o que me permitiu cursar Direito e construir minha trajetória. Sou, ao mesmo tempo, filha de uma família que apostou tudo na educação e fruto de políticas que ampliaram oportunidades para quem vinha de onde eu vim.
É por isso que enxergo o Estado como instrumento de igualdade. Quando bem estruturada, uma política pública faz mais do que prestar um serviço: ela rompe ciclos de pobreza, muda destinos e prova que o ponto de partida de uma pessoa não precisa ser o seu ponto de chegada.
JC – Da Defensoria Pública do Estado do Pará às comunidades ribeirinhas de Santarém, passando por Teresina e Sobral, a senhora percorreu todos os degraus da carreira. O que essa vivência de base ensina a quem agora vai dirigir a instituição em escala nacional?
TL – A vivência na ponta ensina uma lição que não se esquece: nenhuma decisão administrativa é abstrata. Tudo o que se decide em Brasília chega, mais cedo ou mais tarde, à mesa de atendimento e à vida de quem procura a Defensoria.
Atuar em comunidades ribeirinhas, em cidades do interior e em diferentes regiões me fez conhecer a diversidade do Brasil e os desafios reais de quem atende e de quem é atendido. Isso me permite exercer uma liderança próxima, consciente das dificuldades da população mais vulnerável e comprometida com uma gestão que escuta, dialoga e entrega resultados. Aprendi também que instituição forte se constrói de baixo para cima: valorizando quem a integra e ouvindo quem está na ponta. Essa convicção será a bússola da nossa gestão.
Um marco para as mulheres
JC – A senhora é a primeira mulher eleita pela carreira a comandar a Defensoria Pública da União e foi aprovada no Senado Federal com a maior votação já registrada para o cargo. Que significado a senhora atribui a esse duplo marco?
TL – Recebo esses marcos com gratidão e com senso de responsabilidade. Eles não são uma vitória individual: são uma conquista coletiva e um sinal da maturidade institucional da Defensoria Pública da União. Traduzem a confiança da carreira e o reconhecimento do papel que a instituição cumpre na promoção da justiça e dos direitos humanos.
E têm um significado especial para as mulheres, porque ampliam referências e mostram que os espaços de poder pertencem a todas as pessoas preparadas para ocupá-los. Que este marco ajude cada mulher a entender que não há lugar reservado de antemão, nem limite imposto ao tamanho da sua capacidade e da sua liderança.
JC – No discurso de posse, a senhora afirmou que liderar é abrir caminho para que outras mulheres também avancem. Na prática da gestão, que medidas pretende adotar para ampliar a presença feminina nos espaços de decisão da instituição?
TL – Ampliar a participação feminina nos espaços de decisão é um compromisso desta gestão, e ele já começou a tomar forma. Uma das nossas primeiras iniciativas foi a criação da Secretaria de Promoção e Proteção dos Direitos das Mulheres, que atuará em duas frentes: fortalecer a equidade de gênero dentro da instituição e articular políticas voltadas às nossas assistidas.
Queremos uma DPU ainda mais presente na proteção das mulheres, sobretudo das que vivem em situação de vulnerabilidade ou de violência, promovendo autonomia, cidadania e acesso a direitos. Internamente, vamos incentivar a formação de lideranças femininas, ampliar a presença de mulheres em cargos estratégicos e cultivar um ambiente mais inclusivo e respeitoso.
Como primeira mulher eleita pela carreira para dirigir a instituição, sei o peso da representatividade. Quero que mais mulheres encontrem espaço para crescer e liderar, e que, ao mesmo tempo, ampliemos a proteção das milhões de mulheres que batem à porta da Defensoria em busca de justiça, dignidade e acolhimento.
JC – Que mensagem a senhora deixa às meninas do interior do país que, como a senhora, um dia, sonham em transformar a própria realidade pela educação e pelo serviço público?
TL –A cada menina do interior, eu diria: não deixe o lugar onde você nasceu definir o tamanho do seu sonho.
Eu sei que às vezes o caminho parece mais longo e as oportunidades, mais distantes. Mas distância não é destino. O interior me ensinou força, coragem e a não desistir mesmo quando tudo parecia improvável. E me ensinou, acima de tudo, a ter fé: em Deus, na vida e na certeza de que nenhum esforço sincero se perde.
Haverá dias difíceis, dias de dúvida, dias em que o silêncio fala mais alto. É exatamente aí que a fé sustenta e a esperança se reacende. Por isso, estudem, dediquem-se e acreditem no próprio potencial mesmo quando ninguém estiver olhando, porque o conhecimento abre caminhos e a fé sustenta a caminhada.
E nunca esqueçam de onde vieram. A origem de vocês não é limitação: é raiz, é identidade, é força. Se hoje eu estou aqui, é porque houve fé, persistência e muitas mãos que abriram caminho antes de mim. Não desistam. O futuro também é de vocês, e pode ser muito maior do que vocês imaginam hoje.
A missão e os gargalos do acesso
JC – A senhora descreve a Defensoria Pública da União como a instituição que transforma a promessa constitucional de acesso à justiça em realidade. Diante das demandas crescentes da população, onde estão hoje os principais gargalos dessa missão?
TL – O principal gargalo é a distância entre o tamanho da missão que a Constituição confiou à Defensoria e a estrutura de que dispomos para cumpri-la. A demanda cresce todos os anos, nas áreas previdenciária, assistencial, migratória, de direitos humanos e de proteção aos mais vulneráveis, mas a capacidade institucional ainda não acompanha esse ritmo.
Milhões de brasileiros seguem sem acesso regular à Defensoria Pública da União, e mudar isso exige fortalecimento permanente: mais presença territorial, mais estrutura tecnológica, mais capacidade de atendimento. Nada disso se constrói isoladamente. Será decisivo manter um diálogo republicano e contínuo com o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, mostrando que uma Defensoria forte beneficia todo o sistema de justiça. Tenho convicção de que esse diálogo é o caminho para sensibilizar os demais Poderes e construir uma instituição cada vez mais presente na vida de quem mais precisa.
Os 65 milhões sem cobertura
JC – A senhora alertou que cerca de 65 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a um Defensor Público Federal e que a instituição está presente de forma definitiva em menos de 30 por cento das seções judiciárias federais. Qual é o plano para enfrentar esse déficit no biênio?
TL – Enfrentar esse déficit é uma das maiores prioridades da gestão. Nossa estratégia combina a ampliação da presença institucional, o fortalecimento das ferramentas tecnológicas, a expansão dos atendimentos itinerantes e a atuação integrada com outras instituições.
Pretendo, ainda, criar e fortalecer Núcleos de Atuação Verticalizada, que permitem uma atuação mais especializada e estratégica em temas de grande relevância social. Essa verticalização gera expertise institucional e abre caminho para soluções estruturantes, capazes de produzir impacto coletivo na proteção de direitos. Para chegar lá, precisaremos ampliar o orçamento e estreitar o diálogo institucional, porque cada real aplicado na Defensoria se converte diretamente em acesso à justiça, proteção de direitos e dignidade para a população. Investir na Defensoria Pública da União não é despesa: é investimento em cidadania.
Os pilares da gestão
JC – A senhora apresentou quatro pilares para a gestão: diálogo, transparência, valorização das pessoas e fortalecimento institucional. Como esses princípios se traduzem em metas concretas e verificáveis ao longo do mandato?
TL – Esses pilares já estão se traduzindo em ação. Vamos ampliar os canais de diálogo com a carreira, reforçar os mecanismos de transparência, investir na capacitação de membros e servidores, criar e fortalecer os Núcleos de Atuação Verticalizada, expandir a presença territorial da Defensoria Pública da União e levar adiante projetos de modernização da instituição. São compromissos que pretendemos acompanhar de perto, com metas claras e prestação de contas ao longo do mandato.
JC – A valorização dos servidores e defensores aparece com destaque no seu discurso. Que iniciativas a senhora considera prioritárias para fortalecer a carreira e as condições de trabalho?
TL –Valorizar pessoas começa pelo reconhecimento profissional e passa pela melhoria das condições de trabalho, pela capacitação contínua e pelo cuidado com a saúde física e mental de membros e servidores. Quero consolidar uma cultura institucional fundada no respeito, na escuta e no desenvolvimento das equipes, porque é cuidando de quem faz a Defensoria acontecer que conseguimos atender melhor a população.
Diálogo e conciliação
JC – A sua posse foi marcada pela assinatura de um acordo extrajudicial que garante a manutenção do Bolsa Família a famílias que aguardam a análise do Benefício de Prestação Continuada (BPC) pelo Instituto Nacional do Seguro Social. Qual a importância desse modelo de solução negociada, sem necessidade de judicialização?
TL –Esse acordo mostra que o diálogo institucional produz soluções eficientes e humanas. Em vez de empurrar milhares de famílias para a judicialização, garantimos a elas proteção imediata: a manutenção do Bolsa Família enquanto aguardam a análise do BPC. É o melhor exemplo de que, quando as instituições trabalham juntas, quem ganha é o cidadão.
JC – O Advogado-Geral da União classificou esse acordo como um avanço civilizatório e apontou a redução de milhares de processos na Justiça Federal. A conciliação tende a ganhar mais espaço na estratégia da sua gestão?
TL – Sem dúvida. A conciliação, a mediação e as soluções consensuais são instrumentos centrais para ampliar o acesso à justiça, muitas vezes mais rápidos e mais humanos do que o litígio. Sempre que houver espaço para o diálogo e para soluções que preservem direitos, a Defensoria Pública da União estará presente. Essa será uma marca da nossa gestão.
Visão de futuro
JC – Ao final do biênio 2026-2028, o que precisará ter acontecido para que a senhora considere a gestão bem-sucedida?
TL – Considerarei a gestão bem-sucedida se a Defensoria Pública da União estiver, ao fim do biênio, mais próxima da população brasileira. Isso significa ampliar o acesso à Justiça, fortalecer a instituição, valorizar membros e servidores e entregar uma Defensoria Pública da União mais estruturada e mais presente do que a que recebemos.
Acima de tudo, sonho que milhões de brasileiros hoje sem acesso a um Defensor Público Federal passem a ter esse direito efetivamente garantido, que a Defensoria chegue onde ainda não está e alcance quem permanece invisível ao sistema de Justiça. Se, ao final, tivermos uma Defensoria Pública da União mais presente na vida das pessoas e mais brasileiros com seus direitos assegurados, terei a certeza de que honramos a missão que a Constituição nos confiou e avançamos na direção certa.

