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“Uma voz respeitada, técnica e propositiva”

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Em entrevista exclusiva, a Juíza Federal Ana Lya Ferraz, primeira mulher a presidir a Ajufe em mais de cinco décadas, aborda integração nacional, governança associativa, presença territorial e valorização da magistratura federal 

Em entrevista exclusiva para a Revista Justiça & Cidadania, a nova Presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Juíza Federal Ana Lya Ferraz, abordou os eixos estratégicos que nortearão sua gestão: integração nacional, governança associativa moderna, presença territorial e valorização da magistratura.

Ana Lya também destacou os desafios atualmente enfrentados pela magistratura federal e defendeu a reafirmação do respeito institucional ao Poder Judiciário. Na conversa, comentou pautas estruturantes para o fortalecimento da magistratura federal, os projetos legislativos com impacto direto sobre o sistema de Justiça, a incorporação da inteligência artificial à atividade jurisdicional e as principais medidas previstas para sua gestão à frente da Ajufe. Confira a entrevista completa:

Revista Justiça & Cidadania – Sua eleição para a presidência da Ajufe ocorre em um momento considerado como de inflexão institucional da entidade. Quais serão os eixos prioritários de sua gestão no biênio 2026-2028? 

Juíza Federal Ana Lya Ferraz –Minha gestão se organiza a partir de quatro eixos centrais: integração nacional, governança associativa moderna, presença territorial e valorização da magistratura. Precisamos transformar a unidade entre os tribunais em prática institucional contínua, com escuta ativa e articulação permanente. A Ajufe deve estar mais próxima das juízas e dos juízes, compreendendo suas realidades e atuando de forma Coordenada. Ao mesmo tempo, é essencial avançar na valorização da carreira, tanto no aspecto remuneratório quanto no reconhecimento institucional. Nosso compromisso é com uma atuação consistente, dialogada e voltada ao fortalecimento da magistratura federal.

JC – Sua trajetória na magistratura e na atuação associativa se deu em diferentes regiões do país. De que forma essa experiência moldou seu olhar sobre os desafios nacionais da magistratura federal? 

ALF –Fui aprovada no XV concurso da 3a Região, em 2011, com atuação inicial em varas criminais em São Paulo e Campo Grande. Em 2015, removi-me para a 1a Região, assumindo, posteriormente, a titularidade da 2a Vara Federal de Cáceres/MT, onde permaneço até hoje, em unidade de competência plena. Essa trajetória, que reúne experiências em capital e interior, me proporcionou uma visão abrangente da magistratura federal. Estar na ponta da jurisdição, especialmente em região de fronteira, permite compreender, com profundidade, os desafios concretos enfrentados pelos colegas. Essa vivência orienta atuação associativa mais conectada à realidade e comprometida com soluções que dialoguem com todo o país. 

JC – Quais são, em sua avaliação, os principais desafios institucionais que a magistratura federal enfrenta hoje e que exigem atuação mais firme e articulada da Ajufe?

ALF – Um dos desafios mais relevantes hoje é a reafirmação do respeito institucional ao Poder Judiciário. A magistratura exerce função essencial ao Estado Democrático de Direito, com decisões que impactam, diretamente, a vida das pessoas e a estabilidade das instituições. Não é compatível com esse papel a recorrente desqualificação pública do Judiciário, muitas vezes baseada em percepções distorcidas ou na amplificação de episódios isolados. A sociedade desconhece o trabalho silencioso, dedicado, responsável e comprometido dos juízes. A crítica é legítima, mas não pode se converter em enfraquecimento institucional. A Ajufe atuará com firmeza na defesa da magistratura, preservando a independência judicial e contribuindo para um debate público mais responsável. 

JC – Diante do aumento da litigiosidade e da crescente complexidade das demandas judiciais, quais pautas estruturantes a senhora considera inadiáveis para o fortalecimento da magistratura federal? 

ALF – O aumento da litigiosidade e da complexidade das demandas exige o fortalecimento de pautas estruturantes que garantam eficiência e qualidade na prestação jurisdicional. Entre elas, destaco o investimento em tecnologia com responsabilidade, a melhoria das condições de trabalho e a valorização da magistratura. É fundamental avançar em modelos de gestão que racionalizem o volume processual sem comprometer a análise qualificada dos casos. Ao mesmo tempo, é preciso assegurar estrutura adequada e previsibilidade institucional. O enfrentamento desses desafios passa por uma atuação Coordenada, que combine inovação, gestão, organização e valorização profissional.

JC – O Congresso Nacional tem debatido projetos legislativos com impacto direto sobre o sistema de Justiça. Quais dessas propostas mais preocupam a Ajufe neste momento, e por quê? 

ALF – A Ajufe acompanha com atenção propostas legislativas que impactam diretamente o funcionamento do sistema de Justiça, especialmente aquelas que tratam de prerrogativas da magistratura, estrutura de carreira e garantias institucionais. Preocupam iniciativas que, sob o argumento de modernização ou contenção, acabam por fragilizar a independência judicial ou desconsiderar as especificidades da função jurisdicional. É fundamental que qualquer alteração seja construída com diálogo técnico e responsabilidade institucional. A Ajufe atuará de forma vigilante, colaborativa e propositiva, contribuindo para o aperfeiçoamento do sistema, sem admitir retrocessos que comprometam o exercício independente da magistratura. 

JC – Sua atuação em região de fronteira lhe confere uma vivência singular da jurisdição federal. A senhora acha que isso pode influenciar de alguma forma sua condução da entidade? Como?

ALF – A atuação em região de fronteira proporciona visão concreta da complexidade da jurisdição federal, envolvendo temas como criminalidade transnacional, questões migratórias e vulnerabilidades sociais. Essa vivência reforça a importância de uma magistratura preparada, com estrutura adequada e sensibilidade para diferentes contextos. Levo essa experiência para a condução da Ajufe com o compromisso de ampliar o olhar sobre o país real, valorizando as diferentes realidades regionais. O objetivo é fortalecer atuação associativa que seja, de fato, representativa e conectada com a ponta da Justiça Federal. 

JC – O Brasil apresenta realidades regionais muito distintas. Como a Ajufe pretende ampliar a escuta e representar, de forma efetiva, a diversidade entre magistradas e magistrados espalhados por todo o território nacional em meio a todas as peculiaridades que lhe são inerentes? 

ALF – Ampliar a escuta e fortalecer o senso de pertencimento dos colegas é uma prioridade da minha gestão. O Brasil tem dimensões continentais, e isso exige atuação associativa que vá além dos centros institucionais tradicionais. Durante a campanha, me propus um desafio e percorri 20 estados em 25 dias úteis, em uma agenda intensa de diálogo direto com magistradas e magistrados. Essa experiência, que não foi nada simples, reforçou a importância da presença e da escuta qualificada. As reuniões presenciais fazem diferença no diálogo e na compreensão. Pretendo instituir um calendário permanente de visitas e estruturar reuniões virtuais temáticas, considerando as diferentes realidades regionais. A Ajufe deve ser um espaço efetivo de representação e participação. 

JC – No atual cenário institucional, como a senhora enxerga o papel da Ajufe na interlocução com os tribunais superiores e com os demais atores no sistema de Justiça? 

ALF – A Ajufe representa a ampla maioria da magistratura federal brasileira, o que impõe uma responsabilidade relevante na interlocução com tribunais superiores e demais atores do sistema de Justiça. Esse diálogo exige equilíbrio, consistência e capacidade de construção. É preciso atuar com firmeza na defesa das pautas da magistratura, sem perder a responsabilidade institucional e a compreensão da complexidade dessas relações. A Ajufe deve ser uma voz respeitada, técnica e propositiva, contribuindo para soluções que fortaleçam o sistema de Justiça, preservando a independência e as garantias da magistratura.

JC – A incorporação da inteligência artificial à atividade jurisdicional avança em ritmo acentuado. Como a Ajufe tem se posicionado diante desse fenômeno? Há iniciativas concretas em desenvolvimento? 

ALF – A incorporação da inteligência artificial à atividade jurisdicional é um movimento irreversível, que deve ser conduzido com muita responsabilidade institucional. A tecnologia pode contribuir para maior eficiência e organização do trabalho, mas não substitui a atividade decisória do magistrado. A Ajufe tem acompanhado esse avanço e defende implementação que respeite limites éticos, transparência e segurança jurídica. É fundamental estabelecer diretrizes claras para o uso dessas ferramentas, garantindo que a inovação esteja a serviço da jurisdição. O desafio é equilibrar modernização com a preservação da essência da função judicial. 

JC – Sua eleição marca um momento histórico: pela primeira vez, uma mulher à frente da Ajufe. Como a senhora interpreta essa conquista em termos de representatividade e transformação institucional? 

ALF –A minha eleição representa um marco relevante na história da Ajufe. Após mais de cinco décadas, a chegada de uma mulher à presidência reflete transformação silenciosa, mas consistente, da magistratura federal — que passa a se reconhecer, também em seus espaços de liderança, de forma mais ampla. Esse fato tem um valor simbólico importante, porque sinaliza evolução institucional e reforça a ideia de pertencimento. Ao mesmo tempo, é essencial que ele seja compreendido com maturidade: o que legitima a gestão são as ideias, o trabalho e a capacidade de construir soluções. Vejo esse momento com senso de responsabilidade institucional e como oportunidade de fortalecer ainda mais a Ajufe. 

JC – Para além das pautas imediatas e dos assuntos que abordamos aqui, que legado a senhora pretende construir como Presidente da Ajufe? 

ALF –Mais do que iniciativas pontuais, pretendo contribuir para a consolidação de uma Ajufe ainda mais integrada, presente e estrategicamente posicionada. Um dos objetivos é fortalecer a cultura de atuação permanente, com escuta ativa, articulação institucional contínua e maior proximidade com os colegas em todo o país. Também será prioridade avançar na valorização da magistratura e ampliar a capacidade de interlocução qualificada da entidade. O legado que busco construir é o de uma associação sólida, moderna, participativa e preparada para enfrentar desafios complexos com unidade, consistência e visão de futuro.

JC – Qual mensagem a senhora gostaria de transmitir às juízas e aos juízes federais de todo o país neste início de gestão? 

ALF –Inicio esta gestão com profundo respeito pela magistratura federal e pelo trabalho que cada colega realiza diariamente em todo o país. Sei que os desafios e as dificuldades da carreira são reais e, muitas vezes, exigentes. Mas também estamos aqui por uma escolha – e ela nos convoca todos os dias. 

Cabe a cada um de nós reconhecer o papel institucional que desempenhamos, com responsabilidade e consciência, sem perder a capacidade de enxergar, nas dificuldades, oportunidades de construção. A forma como atravessamos esses desafios também é uma escolha diária. 

Quero, de maneira muito pessoal, compartilhar uma convicção: é possível exercer a magistratura com seriedade e, ao mesmo tempo, com leveza; com firmeza e, ao mesmo tempo, com sensibilidade. Que possamos seguir com presença verdadeira, olhando para o nosso trabalho com propósito e encontrando, mesmo nos momentos mais desafiadores, razões para exercer essa função com equilíbrio, humanidade e serenidade.

Perfil

Ana Lya Ferraz da Gama Ferreira é a primeira mulher a presidir a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe). Juíza Federal há 15 anos, ingressou na magistratura em 2011 e é Titular da 2a Vara Federal de Cáceres/MT. Foi Secretária-Geral da Ajufe nas gestões dos juízes federais Nelson Alves e Caio Marinho. 

Graduada em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso, é pós-graduada em Direito Público e mestre em Direito Penal Tributário pela PUC-SP. Professora universitária desde 2005, foi Coordenadora adjunta do Núcleo Regional da Escola de Magistrados da 3a Região.

Edição

13 de maio de 1999

13 de maio de 1999

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