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Relógio do manicômio

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Esmaltado, liso e preto, ele se movia em pequenos trancos compassados. Não sei bem o porquê, desde logo o ponteiro grande me intrigou. O pequeno, nem tanto. Ambos, cobertos por um vidro transparente, contrastavam com o fundo branco apoiado na parede daquele salão nervoso. Deitei a cabeça para um lado e, mão no queixo, fiquei observando. “Há alguma coisa errada com o ponteiro grande”, pensei. Podia sentir isso no ar. Mesmo assim não conseguia perceber o que era.

Em frente ao relógio, uma poltrona solitária. Sentei e, em seguida, veio o silêncio. Não ouvia mais as ordens espalhafatosas do general, nem os gritos e lamentos daquela gente esquisita. Alguns pareciam falar, outros gritar, mas, como num cinema mudo, o som não era captado pelos meus ouvidos. Em verdade, aquilo fazia parte do meu torpor.

Tinha tomado o medicamento da manhã. Por certo, ainda estava sob seus efeitos. Minutos depois, o barulho foi falando mais alto e a vida voltando ao normal. Passei, enfim, a sentir-me bem. Apenas a cabeça doía um pouco. Foi quando voltei a  pensar nos ponteiros do relógio e, de novo, comecei a observá-los. Agora nada via de anormal neles. O médico tinha razão: sob efeito do medicamento, eu costumava cismar com certas coisas sem qualquer motivo plausível.

– Só faltava essa: o remédio me fazer mal tão próximo de minha alta – resmunguei.

Logo depois, ao fim de longo monólogo interior, tive de ponderar: “Que bobagem! Cismar com os ponteiros!”

Pensava assim, quando olhei de relance e percebi o ponteiro grande deslocar-se no sentido anti-horário. Era apenas impressão. Só podia ser, concluí. Agitado, sem pestanejar, fixei os olhos no relógio e, para minha surpresa, confirmei a ocorrência do improvável, imponderável, inacreditável: os ponteiros andavam para trás! O grande, apressado; o pequeno, moroso.

Estaria eu ainda sob o efeito do medicamento? Não, não podia estar: ouvia agora a barulheira do salão, os gritos do general mandando o pessoal ficar em fila, a cantora de ópera com sua voz desafinada, enfim, toda aquela algazarra. No dia anterior o doutor havia dito que me daria alta dentro de uma semana. Portanto, era boa minha saúde mental. O que estaria acontecendo? Claro, os ponteiros não podiam estar girando no sentido anti-horário.

Fechei os olhos para não ver aquilo. Estava no lugar errado, tinha certeza disso. O médico dissera que, a rigor, minha internação não seria necessária. Meu caso era simples. Ficaria internado por pouco tempo. Apenas para melhor combater o estresse. Mas, em verdade, o contato com aquelas pessoas me fazia mal. Precisava sair dali.

De repente, cogitei a hipótese de que alguém pudesse estar manobrando o relógio por trás da parede. Talvez fosse qualquer espécie de teste novo. Pensando bem, do outro lado era a sala dos enfermeiros. É isso, refleti. Daquela sala, um deles devia estar controlando os ponteiros de alguma maneira. Com certeza queriam ver quem percebia ou não o fato, observar nossa reação diante de coisa assim tão estranha. É claro, o general louco nada notou de errado com o relógio, muito menos a cantora desafinada, mas eu não era igual a eles e logo percebi.

Precisava ter certeza de que aquilo era mesmo um teste. Então fui ao canto do salão de onde se podia ver a sala dos enfermeiros. Vi um deles, Jurandir, de quem gostava muito, conversando com Dr. Furtado, médico responsável por minha alta. Jurandir era grandalhão e mantinha a mão apoiada na mesma parede onde estava fixado, do outro lado, o relógio. Procurei observar a altura daqueles dedos em relação ao marcador de tempo. Era mais ou menos a mesma. Além disso, notei que ambos conversavam sorridentes e, vez por outra, vinham até a entrada do salão, olhavam para o relógio na parede e voltavam rindo. Sem dúvida, era um teste.

Achava Jurandir o melhor dos enfermeiros. Grande e forte, muito atencioso comigo, percebia que eu não era igual aos outros e dizia isso de maneira clara. Conversávamos durante horas, trocávamos idéias e até confidências. Tinha confiança nele.

– Chegou a hora do banho de sol, professor. Vamos lá? – falou Jurandir com simpatia.

Fingi que não havia escutado e continuei a olhar para os ponteiros.

– Por que você olha tanto para o relógio, professor? – indagou-me sorrindo.

– Você sabe muito bem, Jurandir – respondi secamente.

– Eu não sei de nada, homem.

– Dr. Furtado deve estar lá na sala dos enfermeiros agora, não deve? – perguntei-lhe convicto.

– Sim, deve estar. Por que me pergunta?

– Ora, Jurandir, porque alguém precisa estar mexendo no relógio para fazer o teste.

O enfermeiro veio se chegando, colocou o braço no meu ombro e perguntou:

– Mexendo no relógio? Teste? Meu querido, que história é essa? – disse ele com sorriso maroto.

– Não se faça de bobo, Jurandir. O que vocês fizeram? Por que os ponteiros estão andando em sentido contrário?

O enfermeiro olhou demoradamente para o relógio afixado na parede, e, logo depois teve de concordar comigo. Era mesmo um teste.

– Graças a Deus!!! – exclamei comovido. – Pensei que estivesse ficando louco.

Foi assim que passei no teste mais importante de minha vida e provei estar em pleno gozo de minhas faculdades mentais.

Só não compreendi até hoje por que ainda não me deram alta.

Edição

13 de maio de 1999

13 de maio de 1999

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Luiz Vivas
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